domingo, fevereiro 23, 2014

A minha tia Maria José


Estava eu sentada num puff aqui por trás de uma porta da sala a espreitar para a rua quando me vem á memória a minha velha tia Maria José. Um mulher simpática, nada bonita mas muitíssimo bem educada. Era irmã do meu avô João, uma mulher letrada mas demasiado ingénua, deixou-se enrolar por um homem de bom ar viciado no jogo. Ele mentiu-lhe, levou-a a ver uma terras e disse-lhe que era tudo dele, casaram e ele perdeu o casarão que ela herdou do pai no Restelo, no jogo, claro. Não sei se alguma vez ela gostou dele ou ele dela, lembro-me que viviam na casa da filha mas cada um fazia a sua vida, não me lembro de os ver falar mas lembro-me dela sempre sentada á  janela. Não sei se ela via alguma coisa do que se passava na rua, acho que ficava perdida nos seus pensamentos, e no que se tinha tornado a sua vida. Viveu rodeada de empregados e de repente viu-se sem nada por causa de um homem pouco recomendável. Nunca trabalhou, não sabia fazer nada. Era uma mulher de bom coração que vivia com os restos que lhe sobraram de uma vida mais chique. Lembro-me que ainda tinha um espelho de prata e a respectiva escova, umas salvas de prata, uns santos e mais umas relíquias. Passava muitas horas no salão, leia-se sala de tamanho normal mas cheia de antiguidades onde nós miúdos não podíamos brincar porque era tudo muito formal e podíamos partir alguma coisa. Nunca a vi queixar-se mas sei que nunca foi feliz. Podia ter sido mas escolheu mal o caminho.


Boa tarde

Maggie

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