segunda-feira, junho 23, 2014

eu não queria falar do Daniel

mas a miséria em que vivia potencia tanta coisa…Eu tenho pena da Lídia e não quero apontar-lhe o dedo, não quero e não devo. Eu não vivo num casebre, eu não tenho uma filha com problemas cardíacos a precisar de ajuda e de dinheiro para se tratar. Eu não posso dizer o que faria se me visse desesperada, mas posso achar sacana da parte do pai esta denuncia á mãe porque ela saiu de casa para ir viver com outro homem e levou os filhos. Não me parece que a Lídia tivesse arquitectado este rapto do filho sem o conhecimento do pai, acho difícil. Todos nós achamos isto aberrante porque a criança seria vendida e tudo o que mete dinheiro nunca é bem visto mas não acho menos aberrante isto de deixar um filho á porta de casa de alguém, á porta de uma instituição e ser dado a criar a outras pessoas que possam dar-lhe um futuro melhor, enfim, coisas que se passavam com muita frequência antigamente. Isto não é novo, isto da venda dos bebés sempre existiu e a Lídia foi apanhada, se calhar por ser demasiado ingénua não soube fazer as coisas, a ilha da Madeira já teve e continuará a ter casos destes, não é novidade para ninguém que a par da modernidade da ilha há uma zona demasiado miserável que ninguém quer ver. Se calhar é por isto que a Madeira nunca me encantou. E a confusão que me faz o tipo de pessoa que quer ficar com os filhos de outros, seja pagando seja ficando com a criança por caridade. Nunca me passou pela cabeça criar filhos de outros, nunca me passou pela cabeça desejar um bebé abandonado á minha porta, era lá capaz de criar uma criança que não fosse minha, não era. Nunca tive esse sonho, esse desejo. E posso afirmá-lo porque já senti na pele o que é querer ter filhos e não conseguir. Foram 7 anos que me deixaram marcada, foram 7 anos em que só sobrevivi., foram 7 anos em que pensei em tudo, todas as ideias me passaram pela cabeça. Mas eu nunca coloquei sequer a hipótese de adoptar, nunca desejei os filhos de ninguém, nem nunca pedi que me caísse uma criança do céu. Eu só queria ter os meus filhos, nascidos de mim e se nunca tivesse tido essa sorte via-me sozinha cheia de antidepressivos, internada numa instituição psiquiátrica qualquer mas filhos de outros não obrigada. Não tenho essa ideia romantica. Não tenho esse amor para dar, sou assim a modos que egoísta e só quero o que é meu. Tenho pena da Lídia, será que se tivesse conseguido vender o Daniel conseguiria ultrapassar isso e viver o resto da vida despreocupadamente? será que iria algum dia esquecer-se do filho? e será que conseguiria viver com a culpa? acho difícil, e tenho mesmo pena da Lídia. É fácil apontar o dedo quando não vivemos a vida dos outros.


Maggie

11 comentários:

Anónimo disse...

Se as suas filhas decidirem ter filhos adotados, vai rejeitar como netos então.

Maggie F. disse...

Oh cues há logo uma gente que vem dizer disparates e desdizer o que uma pessoa diz. Se as minhas filhas optarem por adoptar crianças é com elas, serei avó não mãe. será uma opção delas e não minha. O que eu disse é que eu como pessoa que já me vi na situação de não conseguir ter filhos nunca quis os filhos dos outros, fossem dados, comprados ou deixados á minha porta. Sempre quis ter os meus e por isso esta opção nunca foi opção para mim, se for um dia para as minhas filhas, para as minhas amigas para alguém que eu conheça maravilha, para mim não é.
É uma opção minha que deve ser respeitada como eu respeito todas as outras, embora não compreenda muitas delas.
Bjos

Maggie

Anónimo disse...

Vc não conhece a Madeira está visto e que eu saiba pq lá trabalhei alguns anos na PJ, ninguém ignora a pobreza que existe e que não é nem de longe tão dramática como a de Portugal Continental. Estou neste momento a dar formaçao em Corroios e é assustador a pobreza, a prostituição infantil que todos fingem não ver etc etc. A Madeira ainda é o paraíso no nosso país e um motivo de orgulho. E casos destes como o do Daniel por lá são pontuais e os pais serão punidos, espero eu !! Nestes casos a culpa não é da pobreza, mas sim de uma pobreza que está em todas as classes sociais e em todo o Mundo. Mas deu para perceber que há coisas que vc não consegue atingir e ainda bem que nunca adoptaria.O país agradece lol

Maggie F. disse...

Está enganada porque eu conheço a Madeira. E já agora quem disse que a Madeira tem zonas miseráveis, e que teve já vários casos destes foi um seu ex colega da PJ na edição das noticias da hora do almoço. E quanto ás opções de cada um é simpático respeitar não lhe parece?

Bjos

Maggie

ana disse...

Quem adota não adota os filhos dos outros, recebe crianças que passam a ser suas, completamente suas, mais suas do que qualquer biologia pode garantir. Isto, claro, passando por cima do facto de que os filhos não são nossos, são deles mesmos e um dia voarão, se tudo correr bem. Se calhar a forma de expressão é que é muito feliz, a insistência na expressão "filhos dos outros" parece que faz destas crianças filhas de um deus menor.
Quanto a esta mulher, não a desculpo, não. Ou acreditas que o dinheiro ia ser usado para tratar a filha cardíaca - isso sim, é ingenuidade. Claro que a Madeira tem enormes bolsas de pobreza, como o continente também tem. A propaganda do Jardim, esse ditador de meia tigela, prefere escondê-la. Mas a miséria nunca justificará atos criminosos, sobretudo quando envolve receber dinheiro por um filho que,se não se quer, se entraga de graça. Sim, para essas famílias que, sem nenhum heroísmo especial, poderiam fazer deste menino seu.

ana disse...

"E a confusão que me faz o tipo de pessoa que quer ficar com os filhos de outros, seja pagando seja ficando com a criança por caridade." Aqui estás a julgar os outros (o tipo de gente que adota será como?) e não a afirmar uma opção de não adotar. Não gostei de ler.

Maggie F. disse...

Olá Ana eu não julgo ninguém apenas tento meter-me no lugar de todos e como infelizmente na minha vida cheguei a ponderar isto, sei que para mim isto não seria opção porque para mim quando se quer um filho quer-se um filho nosso. Nunca aceitaria adoptar é uma opção minha. Quem adopta é tão livre de o fazer como eu de não o querer fazer, e quem iria comprar esta criança, que tipo de pessoa seria? quem se prestaria a isto? é essa a questão que coloquei.
Bjos

Maggie

Rita_in_UK disse...

Eu também concordo com a Ana, as pessoas que tu afirmas que ficam com uma criança "por caridade" e a chamam sua ( e olha que aqui deves estar a ferir muitas amigas nossas da APF) são apenas pessoas com um coração gigante. Não lhe chegando sequer aos calcanhares, nós decidimos ser família amiga de uma criança institucionalizada. Durante pelos menos um dia por mês aquela menina é recebida em nossa casa como sendo parte da família e foi um compromisso para a vida que assumimos a quatro. Porque como tu já tenho os meus dois e todos os dias agradeço a Deus o facto de mos ter confiado, mas sinto que posso fazer um pouco mais. Suponho que também me aches um bocado esquisita :). Acho que a diferença aqui é que tu achas que as tuas são mesmo tuas. Eu acho que os meus são Dele e Ele apenas mos confiou para eu dar o meu melhor. Bjinhs

Maggie F. disse...

Olá Rita, longe de mim achar alguém esquisito, acho lindamente quem adopta uma criança mas eu nunca tive esse objectivo lamento. Nunca sonhei com isso, se há quem tenha esse objectivo acho optimo. O que eu acho esquisito e o que me intriga é o tipo de pessoa que ficaria com esta criança, este daniel, como é que alguém cria uma criança que não sabe de onde veio, uma criança paga, só isso. Nunca esteve em questão as pessoas que adoptam uma criança serem ou não boas pessoas, com certeza que o serão, mas que tipo de gente aceita uma criança raptada. Não vamos confundir as coisas.
Bjos

Maggie

Mary disse...


Ao contrário de ti tinha 20 anos não sabia se era fértil ou não mas sabia que iria um dia adoptar uma criança. Sonho concretizado.
Não poderia ser mais feliz.

Maggie F. disse...

E eu acredito que sim Mary, era um sonho que se concretizou, o mais natural é que estejas feliz. Maravilha.

Bjos

Maggie