quarta-feira, outubro 08, 2014

Temos filhos para os ver dormir - crónica Sofia Anjos

No país dos filhos únicos, quem tem um filho é rei. E no país dos filhos únicos, quem é rei é remediado. E quem é remediado, não tem tempo.
Tudo se cria, dizem. E numa mesa portuguesa comem dois e quem mais se sentar, basta apertar os cotovelos. Somos um povo com jeito para somar, acumular, aumentar o que quer que seja, excepto rendimentos. E filhos. Passo a redundância.
Esta sociedade, apesar de liderada por um coelho, não está para grandes procriações. E não é por causa da suposta geração egoísta que não quer filhos. Nem por causa da idade tardia ou da evidente falência do casamento. E muito menos pela cómica desculpa de que agora as mulheres trabalham.
O que devia contar é a vontade de ter filhos. E o natural seria haver condições para quem está cheio de vontadinha. Mas contas feitas a este desejo de pré-gravidez, as mulheres fecham as pernas. Algumas, mais corajosas, abrem-nas e gritam “Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!”. É que vão precisar de toda a ajuda.
Começa com 50 euros mensais para as latas de leite na farmácia, 85 euros para a consulta numa pediatra particular, 70 euros para uma das muitas doses de vacinas incentivadoramente fora do plano de vacinação nacional. A farmácia é a segunda casa de uma recém-mamã onde mensalmente contribui com a dízima. Quem não tem seguro de saúde, fica com o rabo quadrado das cadeiras miseráveis dos centros públicos. E pede o papelinho de justificação por ter faltado a manhã toda ao trabalho.
Veja-se a lista de artigos a comprar para quem vai ser mãe pela primeira vez. Mesmo comprando tudo de marca branca, em promoção ou nas feiras de bebés, difícil será não puxar do cartão de crédito. “Posso prescindir do soro fisiológico?" Sim, substitua por água. “Posso prescindir das compressas?” Sim, substitua por algodão, do mais baratucho e depois retire os fiapos que ficaram colados na cara do bebé com a unha. “Posso prescindir do aspirador nasal?" Sim, use soro. Não, já prescindiu do soro, use água. “Detergente específico para roupa do bebé?" Modernices, use sabão azul e branco.
Simplificamos a lista e a criança nasce. E a sociedade presenteia-a com quatro meses de licença maternal a 100% de remuneração. OBRIGADA! Se quiser mais um mês, pode tirar, mas já não recebe por inteiro. Breve dúvida maternal: o bebé ou o dinheiro?
“Posso prescindir da creche?" NÃO. “Então, faça o favor de pagar 350 euros mensais e se vier buscar o bebé depois das 17h30 paga mais.” Perfeito, saindo às 18h30 do trabalho, os pais ficam muito bem vistos pelo chefe. E garantem que não serão promovidos enquanto a criança andar de gatas. Mas talvez mantenham o emprego. “Não tem que chegue para pagar a creche? Ponha a criança numa creche social, só paga em função do rendimento e basta esperar dois anos para ter vaga”. Ah... se calhar é melhor ir fazercastings para anúncios de mães que chegam atrasadas para ir buscar os filhos que confiam nelas.
But it’s not about the money! Parece que é mas não é. A grande comédia parental, de que todos fazemos parte, é que não temos tempo para ter filhos.
Fazemos contas à vida para ter filhos para depois os deixar em algum lado. Temos filhos para perguntar “Onde é que o ponho agora?”. Temos filhos para os levar de manhã à escola e os recolher à noite. Temos filhos para os ver dormir.
É tão bom ter filhos que, quase todos, queremos um. Claro que damos um jeitinho e lá arranjamos um pé de meia para o dia-a-dia. Mas o que falta nas prateleiras do supermercado são promoções de tempo: na compra de um pacote de fraldas, oferta de duas horas para estar com o seu bebé. O que falta nas farmácias é uma vacina contra os atrasos. Não adianta comprar compressas se não temos tempo. 
Sou rainha no meu país: tenho uma filha, um quarto só para ela, tenho emprego onde ganho bem mais que o ordenado mínimo e conto com a ajuda das avós. E esta sociedade diz-me para ficar radiante e não me queixar, pois desejar mais tempo para estar com ela não está previsto na legislação. E muito menos nas mentalidades. Para já, vou esperar para ver que novas medidas de incentivo à natalidade vão sair da cartola. Para perceber se terei tempo para imaginar um segundo filho.

É mais ou menos isto, é!


Maggie

3 comentários:

Sentada na ponta da lua disse...

Adorei ler! Uma visão muito clara para quem o assunto da maternidade atormenta diariamente, pelo simples facto de não ter tempo de ser uma mãe na verdadeira acepção da palavra... porque falta tempo!
Obrigada pela partilha.

Timtim Tim disse...

Minha querida. Como sabes, sou mãe de duas e quem sabe venha um terceiro pelo caminho. E trabalho, trabalho todos os dias, muitas vezes depois de elas irem dormir, mas prescindo de férias em coisas de luxo e outras coisas caras, para poder ter uma empregada que vai todos os dias tratar da casa, para eu ter tempo para estar com elas das 17 e 30 (hora que saem da escola) até que se deitam. E nunca, mas nunca, faltei a uma festa na escola delas. Meto falta no trabalho, perco dinheiro, perco benesses, acumulo trabalho para outros dias. Mas ser mãe é aquilo que sou acima de tudo. E mesmo que ganhasse metade do que ganho, pensaria da mesma forma. Se havia de ter um telemóvel de 500 euros, tinha um de 100. O que há, hoje em dia, é muita vontade de não se ter trabalho. Não digo que a crise não assuste. Mas os cãezinhos de raça, com rações específicas e com idas ao veterinário constantes, com casotas climatizadas e mantinhas e roupinhas também dão muita despesa e proliferam por esse país.
A causa da baixa de natalidade não é só a falta de dinheiro ou a falta de tempo. É uma conjugação de muitos muitos factores. Não podemos ser tão lineares. Uma das minhas colegas tem 4 filhos e trabalha tanto como eu ou mais e posso garantir-te, porque conheço bem a realidade dela, que não tem os filhos para os ver dormir.

Nany disse...

Concordo e não.
Para mim filhos é um projecto de vida. Muitos não têm tempo e eu quaixo-me disso, tenho dias (quase todos) que só digo "despacha-te", "janta, escova os dentes, xixi-cama".
pareço um disco riscado é certo, mas não acredito que o dinheiro apareça e tudo se crie. É um esforço danado sair a correr, er buscá-los a correr, tentar não adormecer quando se adormece a criança, tentar arrumar as coisas no dia a dia e pensar que nas férias (sim nessas) vou conseguir limpar a casa a fundo.
Não temos empregada, não fazemos férias para lado nenhum, não andamos sempre no cinema, nem em teatros, nem em espectáculos (tento apanhar borlas, promoções, afins), não temos roupa de marca, não temos mochilas xpto nem telemóveis última geração. temos o que temos, somos a família que somos.
Do que não abro mão? De lhes dar o melhor que posso a nível pessoal, da saúde, da escola (e sim andam na pública, mas eu mãe chata, chatinha anda sempre em cima do caderno e às vezes da professora) e vacinas.
Quem não quer ter filhos por razões suas é tão válido como quem quer ter uma centena.
Não temos legislação que proteja a família, não temos creches, nem escolas que respondam e correspondam às necessidades das famílias. O que também não temos é na lembrança que quem toma conta dos nossos filhos nas escolas tem os deles noutro lado, e que família todos temos.
Enquanto se olhar só ao lucro, só aos numeros e não se entender que um funcionário produz mais quando motivado, quando menos preocupado com os filhos, os horários talvez se consiga mudar as coisas.
Não tenho é ilusões que será para breve.
Ah, e também nem sempre temos avós, ou a idade de reforma não foi alargada?
Bjks