segunda-feira, setembro 21, 2015

na balança

A minha mãe partiu há 15 dias e eu no mesmo dia assim que cheguei do hospital expliquei muito bem ás miúdas o que se tinha passado, por muito bem leia-se que expliquei dentro do que é possível para a idade delas claro. Expliquei de maneira que não tivessem duvidas, expliquei até perceber pela cara delas que não precisavam de mais explicações. Acontece que durante este 15 dias nunca falaram na minha mãe, não voltaram a falar de nada sobre a avó, não fizeram qualquer pergunta que mostrasse que não tinham ficado esclarecidas. Não sei se isto é normal, não sei se com isto devo entender e respeitar o tempo e comportamento delas ou se devo ficar preocupada. Será que perceberam e por isso não há grandes questões ou haverá ali coisas mal entendidas mas que das quais não querem falar? Que vos parece?

Até mais logo


Maggie

12 comentários:

Mia Aguiar disse...

Quando o meu avô morreu também não falava e ainda não consigo falar. Tenho um medo absolutamente estranho de chorar acho e achava que isso me tornava mais fraca e ficava constrangida de cada vez que falavam nele. Não é nada é só o medo de a terem mesmo perdido sabes?
Vai passar.
Beijinhos

esperto que nem um alho disse...

É sempre difícil perceber o que vai na cabeça das pessoas e tratando-se de crianças, mais difícil se torna.
Talvez o tempo as faça perceber, sem traumas nem choques desnecessários... mas quem sabe?

Mãe Sabichona disse...

As crianças também são diferentes na forma como gerem a morte e o luto. Umas falam e perguntam mais, outras nem sequer tocam no assunto. O importante é que elas sintam que, caso precisem de falar, podem fazê-lo. Também acontece de estar relacionado com a forma como nós adultos transmitimos o que sentimos, ou seja, é muito comum fornecermos as informações factuais quanto ao que se sucedeu, de uma forma até bastante racional e depois na parte emocional escondemos porque partimos do principio que não queremos que eles sofram e que é melhor não os sujeitar a isso. Acabamos, nós próprios, por ter uma atitude de não tocar muito no assunto quando todos sabemos tacitamente que está presente. Não acho que as crianças devam carregar todo o fardo da intensidade emocional que um luto acarreta nos pais e penso até que as temos de proteger de algumas coisas, mas é bom dar espaço para que elas tenham contacto com esses sentimentos dolorosos porque se elas não nos vêm a demonstrar, então também acham que não o devem ou podem fazer.

PA disse...

Só posso falar por mim. Perdi o meu avô paterno na véspera de fazer 7 anos. Pouco tempo antes, os meus pais tinham perdido uma amiga muito querida de forma inesperada. Em qualquer das situações eu percebi muito bem o que se estava a passar e aceitei. Não sei se ajudou ter tido contato direto com tudo (velório, funeral).....mas assimilei tudo muito bem. Mas lá está, todas as pessoas são diferentes. Até as crianças!

Anónimo disse...

Já pensou que elas podem estar a pensar exactamente a mesma coisa que a Maggie? "Os nossos pais nunca mais falaram da avó e da sua partida". Elas até podem querer falar, mas se vêem que a família não toca no assunto elas também não vão tocar. Elas são crianças e quem tem de as colocar à vontade para falar do assunto são os adultos, e para isso é preciso que falem primeiro. Mas em principio não é a coisa mais normal que as netas não falem da avó nem das saudades, 15 dias passados desde a sua partida, a menos que tivessem uma relação muito distanciada. Se fossem crianças de 4/5 anos falavam e perguntavam tudo e mais alguma coisa mas dessa idade já têm a mesma reacção que os adultos que é de não tocar no assunto se mais ninguém toca.

Maggie F. disse...

Agradeço os comentários mas gostava de esclarecer duas coisas: aqui em casa fala-se da minha mãe, como se fala da minha avó que elas ainda conheceram, como até se fala de outros avós que elas nem conheceram mas que eu faço questão que conheçam pelas minhas memórias. Eu nunca disse que cá em casa não se fala da avó que faleceu. Por outro lado, agradeço á anónima mas não é verdade que crianças de 4 e 5 anos perguntem tudo, as minhas nada perguntaram na altura quando faleceu a minha avó, (pessoa que passava algum tempo cá em casa e de quem a mais velha ainda tem memória), e não me parece que crianças de 8 e 9 anos compreendam e interiorizem estes acontecimentos como adultos, o que parece é que acham que não tocando no assunto fica mais fácil, não sei …

Beijinho

Maggie

patricia disse...

Cada criança é uma criança, como cada adulto é um adulto e cada um faz o luto à sua maneira.
Não sei que relação tinham com a avó, mas se como dizes continuas a falar na tua mãe se calhar é mesmo do feitio delas não falarem... eu pelo meu feitio já as tinha questionado...o que sentiam, se queriam falar sobre o assunto, porque às vezes podem achar que é melhor não falar para não avivarem memórias e mesmo para não te "magoar" não sei se me faço entender. Talvez um mecanismo de defesa.
Há pessoas que fazem o seu luto falando outras calando.
Ao fim de 15 dias é normal a ausência começar a sentir -se e as saudades a apertarem... aflora o assunto tb para elas perceberem que podem falar, que podem chorar, porque mesmo que tenham percebido tudo muito bem percebido a cabeça das crianças não é a de um adulto.
Um bj grande neste momento dificil

Anónimo disse...

É difícil saber o que vai na cabeça delas, mas pensando nas minhas experiências enquanto criança e nas que tenho tido com os meus filhos, parece-me que há uma mistura de vários fatores:
- Eles, embora lhes tenha sido explicado, não têm uma noção tão clara como nós de que a situação é definitiva
- Embora tendo uma ligação forte à avó, não lhes falta aquilo que nestas idades ainda são as âncoras fundamentais: o pai e a mãe (e a irmã, claro), por isso, ainda parece estar tudo mais ou menos "no lugar"
- As rotinas delas não se alteraram em relação ao normal, estão numa fase de início de ano letivo, ocupadas, absorvidas com as novidades, os amigos etc... Eles têm uma capacidade maior do que a nossa de "desligar" quando estão envolvidos noutra coisa.
Ainda passou muito pouco tempo, acho que virá a fase em que efetivamente começam a sentir falta e talvez aí venham a sentir necessidade de falar sobre a avó. Não me parece que haja alguma coisa que as atormente e de que não estejam a falar.
Se vocês falam sobre a avó naturalmente em casa, então não vai ser difícil para elas fazer alguma pergunta ou comentário, se quiserem.

Em relação a ti, lamento o que aconteceu. Mas fico contente que tenhas uma nova vida a crescer aí dentro, sem dúvida a melhor luz que podias ter para te ajudar nesta fase mais sombria.

Um beijinho
Susana

ana disse...

A Susana disse tudo muito bem. Eu perdi a minha avó com 8 anos e não me lembro de fazer perguntas, a verdade é que a ausência para as crianças tem outra dimensão, mais leve talvez. O "para sempre" não significa o mesmo que para um adulto. Quando morreu o meu pai com 10 anos já foi completamente diferente porque fiquei mergulhada num ambiente de dor e tudo, mas absolutamente tudo mudou. Mesmo assim, talvez me tenha marcado mais a "ausência" da minha mãe (que ficou devastada) do que propriamente do meu pai. Já li uma vez que as crianças são mais afetadas pela forma como os adultos sobreviventes reagem do que propriamente pela perda do familiar. Acredito que, embora triste, tentes manter um ambiente positivo aí em casa e isso reflete-se na forma tb positiva como elas estão a reagir. Talvez daqui a uns tempos, quando o "para sempre" se tornar mais real, mostrem alguma tristeza...mas vocês lá estarão para as ajudar.

Diana Machado disse...

é difícil comentar porque não sei como elas normalmente são ou reagem a determinadas situações...se elas forem muito faladoras ai talvez seja de estranhar que não tenham perguntado mais nada mas por outro lado pode ser que tenham mesmo ficado esclarecidas, as crianças não necessitam de estar sempre a tocar no assunto quando percebem o que aconteceu, não tendo por isso nada a acrescentar :) quando a minha bisávo faleceu eu entendi o que se tinha passado e nunca mais toquei no assunto, apenas em algumas conversas de família onde nos lembramos de certas coisas sobre ela.
no fundo tem de ser você a descodificar o que se passa na cabecinha delas :) algumas leituras até podem ser recomendadas, já li livros muito interessantes em relação a como as crianças de diversas idades encaram a morte. mas é certo e sabido que não se pode ocultar o que aconteceu e o que é que a morte significa, nisso fez um óptimo trabalho!
Um beijinho de força :)

Nany disse...

O comentário da Susana disse tudo e o teu também. O facto de sempre falarem da avó e dos outros familiares que já faleceram pode levá-ls a questionar menos, a aceitarem como se fosse mais "normal" e menos diferente. Não sei se me faço entender: a abertura sobre o assunto não lhes deixa espaço para perguntas que poderão surgir ou não a seut empo.
bjs

AvoGi disse...

Desculpa Maggie, só hoje soube da notícia. Desculpa não ter estado aqui para lamentar a tua perda. Receb os meus sentimentos sinceros.
Kis :=>)