domingo, abril 24, 2016

das feridas que não cicatrizam

Podia começar este post de muitas maneiras mas optei por ser o mais directa possível: a minha mãe faz-me falta. A partida da minha mãe deixou-me um vazio e uma sensação de solidão. 
Eu tenho 40 anos, e aos 40 anos pensava eu que ficar sem mãe já não deixava grande mossa, enganei-me. Tento imaginar uma criança ou um adolescente sem mãe e tento imaginar um vazio ainda maior do que aquele que eu sinto. Custa.
Os dias comuns vão passando sem grande drama, o problema são os dias de festa. Por aqui, o baptizado dos miúdos e o dia da mãe que se aproxima escarafuncham mais a ferida. E não há quem entenda, não há tem tenha a sensibilidade mais aguçada para perceber isto, um dia quando perderem a mãe como eu, vão entender finalmente o que dói. Não sou de falar destas coisas e é talvez por isso que não encontro o apoio que procuro mas que não peço. Isto de guardar tudo cá dentro e mandar sorrisos para fora deixa nos outros uma sensação de estar tudo bem, mesmo que não esteja. E deixa-os descansados. 
Amanhã os miúdos vão ser baptizados e a minha mãe não vai lá estar. Tento imagina-la lá no céu a olhar por nós e sei que está feliz por ver que estamos a olhar pelo pai, imagino-a surpreendida por ele fazer almoços e jantares, por lavar a loiça, e por me chamar tantas vezes para lá ir almoçar com ele. Ele sabe que se não me chamar eu não almoço, obrigada pai. Vejo a cara dela feliz porque eu finalmente conduzo, acho que ela já não acreditava que algum dia eu tirasse mesmo a carta, já tinha perdido a esperança neste ponto. Imagino que se derreta com o Manelinho e que o ache um amor. Infelizmente a minha mãe não está cá para o ver crescer, nem chegou a ve-lo nascer e eu fico triste com isso. Este vazio que ficou e que eu tento tapar todos os dias vai ficar comigo ainda durante bastante tempo, eu sei. Ás vezes prefiro acreditar que quem morre desaparece só, e ponto. Nunca mais nos pode ver nem olhar por nós, que isto é só uma ideia romântica para atenuar a dor, e prefiro. Na verdade espero que a minha mãe não nos esteja a ver nem a olhar por nós. Não ia gostar de me ver triste, nem de perceber que não sou feliz todos os dias, que há dias difíceis. Não, eu não quero que a minha mãe nos veja lá de cima, ia ficar zangada com algumas coisas. A minha mãe tal como eu e no fundo como a minha irmã e até o meu pai não era pessoa de ver e calar. Não, a minha mãe era educada, e tinha um excelente carater, pessoas de má índole ou sacanas para os outros não se davam com ela. A minha mãe era exigente com os outros e não sorria por educação como eu faço. Não, a minha mãe apesar de parecida comigo e com a minha irmã no feitio não era pessoa para sorrir só para parecer bem. Não, se a minha mãe cá estivesse ou se olhasse por nós lá de cima estaria zangada com certas coisas, que a minha mãe não ganhou serenidade com a idade, a minha mãe continuava a mesma inconformada que sempre foi. A minha mãe  tinha os valores que lhe passaram muito bem presentes, não era pessoa de ir contra os seus princípios,  tal como eu e as minhas filhas, principalmente a Madalena. Podemos ficar até prejudicadas mas não nos vergamos nem nos vendemos. Não, a minha mãe não nos pode estar a ver lá de cima, senão nunca iria descansar, vejo-a a esbracejar, vejo-a preocupada e vejo-a irritada a tentar que nós façamos outro caminho mas aqui em baixo ninguém a ouve. Deve ser fácil olhar de fora e de cima e ver outros caminhos mas deve ser difícil ver-nos percorrer os mesmos, insistir no mesmo percurso. Não, eu não quero que a minha mãe esteja a olhar por nós, eu só quero que a minha mãe esteja descansada, que não se preocupe e que tenha encontrado o paraíso e feito amigos. Que tenha encontrado os meus avós e que passem os dias á conversa sem olhar cá para baixo. Eu sei que sou forte mãe, fica descansada, eu cá me aguento e vou levando a vida mesmo com este vazio e esta dor que estão cá sempre. Prometo fazer um esforço ainda maior para ser feliz mesmo nestes dias que são mais difíceis. Fica descansada, não te preocupes comigo, descansa em paz.


Maggie

3 comentários:

Gaiatas disse...

Boa noite Maggie

Não perdi a mãe, mas perdi o meu pai, que era o meu pilar..
Ficam as saudades e as recordações.. e ninguém disse que as saudades não doiem. *2 anos e meio de saudades*

Beijinhos

TheNotSoGirlyGirl disse...

Oh :( admito que nao sei o que é perder uma mae ou um pai, e apenas consigo imaginar a dor e a a angústia mas estou certa que onde quer que a tua mãe esteja, está a olhar por ti e pelos teus pequenos :) ♥

patricia disse...

Não perdi a minha mãe, mas perdi o meu pai fez ontem 5 meses e sei o que sentes , bebi cada palavra e senti...
Qd mostraste a foto do Manuel com o fato do Batizado lembrei me da tua mãe porque falaste nisso qd ela foi buscar o fato para tratar dele lembras te?
Tb me faço de forte...mas sabes, às vezes devíamos fraquejar porque mais cedo ou mais tarde vamos quebrar...
Um bj enorme enorme