segunda-feira, julho 25, 2016

da pessoa que eu sou

e de como as pessoas que passam na nossa vida deixam a sua marca, dentro do coração.
A minha avó M. tinha várias irmãs e irmãos, acho que todos gostavam de crianças, pelo menos o carinho com que sempre me trataram deixaram-me essa memória doce. E as memórias são tudo o que temos de mais intimo, de mais bem guardado e no fundo são também aquilo que nos forma como pessoas. 
Das irmãs da minha avó havia duas que eram especiais: a minha tia V. e a minha tia Pi. Na verdade tive a sorte de ser criança quando todos os outros sobrinhos-netos e netos já estavam quase a casar, talvez por isso sempre me acharam graça, afinal eu ainda era uma miúda pequena quando isso já não havia na família. E eu também gostava delas. Gostava muito.
A minha tia Pi, era madrinha da minha irmã Joana mas para ela nunca houve qualquer diferença. Tratou-nos sempre da mesma maneira. Quando dava alguma coisa a uma de nós, dava igual à outra. E deixava muitas vezes dinheiro na casa da minha avó para os rajás, (como ela dizia), mesmo quando nós não estávamos lá. Nunca nos deu nada por obrigação, foi sempre de boa vontade. Era doce, muito simpática, moderna para a época, nunca teve filhos. casou já tarde, andou a aprender a escrever na escola à noite, e aos domingos à tarde fazia a ronda por casa das irmãs a contar as coscuvilhices. Adorava praia, (andava sempre muito morena), fazia férias nas pousadas do INATEL, dizia ela que era o médico que mandava e lembro-me da minha avó resmungar que a ela o médico não mandava, e o médico era o mesmo. Ia ao cinema e passeava imenso, era com ela que a minha mãe em miúda ia de férias. Lembro-me da casa dela e do meu tio Carlos, lembro-me deles a rir, a discutir, lembro-me deles cheios de vida. Lembro-me que a casa deles ficava em frente à igreja e lembro-me que ela andava quilómetros a pé para não pagar bilhete de autocarro. Se eu pudesse ter alguma coisa dela, tinha ficado com o porta chaves, sempre o achei o máximo. Tinha umas pedras ás cores e andava sempre com ela. Acho que nunca lhe vi outro em 20 e tal anos. Curiosamente a ultima vez que a vi apanhou o mesmo autocarro que eu, queixou-se que estava doente e eu não liguei, a minha avó não ligou, ninguém ligou, … ela parecia que vendia saúde. Teve "a sorte" de um dia se deitar na cama e não acordar mais, mas para mim ela ainda vive. E viverá por muitos anos. 

Boa noite


Maggie

2 comentários:

Xica Maria disse...

Gostei muito de ler estas memórias.

D. disse...

Muito interessante o relato destas memórias. Gostei bastante